PM que executou casal no ES: cabo matou cinco pessoas em 18 anos na corporação
Postado 16/04/2026 05H47
Por Lucas Charles
O cabo Luiz Gustavo Xavier do Vale, de 46 anos, que executou duas mulheres em Cariacica, na Grande Vitória, no último dia 8 de abril, também se envolveu em outras três mortes e casos de agressões ao longo dos 18 anos de atuação na corporação. Uma das mortes aconteceu em 2009. A vítima foi um jovem de 23 anos. Já em 2022, o policial disparou e matou uma mulher trans durante uma abordagem. Em 2024, a vítima foi um homem de 39 anos, que foi alvejado com um tiro na cabeça dado pelo cabo Xavier.
O caso da execução sumária de Daniele Toneto (45) e Francisca Chaguiana Dias Viana (31) em Cariacica, no dia 8 de abril de 2026, é um retrato brutal de covardia institucional e injustiça. Sob o olhar omisso de colegas de farda, o cabo Luiz Gustavo Xavier do Vale utilizou sua posição e armamento do Estado para silenciar duas vidas em um ato de violência desenfreada.
Imagens de câmeras de segurança desmascararam a versão inicial dos agentes, revelando que as vítimas foram mortas sem qualquer chance de defesa enquanto estavam sentadas na calçada. O agressor chegou ao local em uma viatura oficial, mobilizada para intervir em uma disputa de vizinhos envolvendo sua ex-esposa, transformando uma ferramenta de proteção pública em instrumento de vingança pessoal.
Outras duas pessoas também ficaram gravemente feridas em episódios distintos. Um dos casos de lesão corporal aconteceu enquanto o militar fazia "bico" como segurança particular em uma boate em Itaparica, em Vila Velha. Após o caso mais recente, o policial foi preso e está no Quartel da PM. Ele foi flagrado por câmeras fardado, em horário de serviço, atirando à queima-roupa contra Daniele Toneto, 45 anos, e Francisca Chaguiana Dias Viana, 31 anos, que estavam sentadas numa calçada, desarmadas. Outros policiais também presenciaram a cena e não fizeram nada para impedir Luiz Gustavo de matar as duas mulheres. Vídeos mostram a ação do policial.
O governo do estado pediu que todos os seis policiais sejam suspensos completamente das funções, com perdas de salários. Mas, até a publicação da reportagem, os seis PMs envolvidos no caso foram apenas afastados das ruas, cumprindo trabalho interno, e tiveram as armas apreendidas.
Histórico de ocorrências Em 2009, no primeiro ano como policial, o cabo do Vale participou de uma ocorrência que terminou com a morte de um jovem de 23 anos, em Porto de Santana, Cariacica. Segundo o boletim da época, Cheverton Silva Guss estava armado e tentou atirar contra os policiais. Quatro agentes estavam presentes, mas apenas o cabo do Vale e outro militar efetuaram disparos. O inquérito foi concluído em 2013, e a Polícia Civil entendeu que os policiais agiram em legítima defesa.
Em 2022, uma mulher trans de 34 anos, conhecida como Lara Croft, foi morta com vários disparos durante uma abordagem no bairro Alto Lage, também em Cariacica. O cabo do Vale atirou junto com outro policial e alegou que a vítima teria ameaçado os militares com um barbeador. O processo segue na Justiça Militar e resultou no afastamento do cabo do Vale das atividades nas ruas, por isso, atualmente ele cumpria funções administrativas e no dia do crime deixou o posto de trabalho na companhia da corporação em Itacibá, também em Cariacica, onde atuava como guarda. A mãe de Lara, Silvana Santos, disse que lembrou da filha ao ver as imagens da execução das duas mulheres, em Cariacica. "A mesma coisa que aconteceu com as moças em Cruzeiro do Sul aconteceu com a Lara.
Vizinhos disseram que a polícia saiu e deixou ele executar. Ninguém fez nada para intervir. Como é que pode o crime se repetir? Ele não mudou nem a versão, legítima defesa", falou. Silvana lamentou que o policial tenha matado mais duas pessoas. Em 2024, mesmo afastado das ruas, o cabo do Vale atirou em Rone Calisto Meira, de 39 anos, durante uma ocorrência policial. Junto com outros dois militares, ele foi ao bairro Campo Grande para atender a um chamado de invasão em um galpão comercial.
No boletim, os agentes afirmaram que viram Rone com uma faca e relataram que ele resistiu à abordagem e avançou na direção da equipe. "Precisou chegar ao extremo. Foi a gota d’água. Ele matou a Lara, continuou trabalhando, com acesso às armas para ceifar mais duas vítimas. Precisou disso para a Justiça dizer que vai fazer justiça", lamentou a mãe.
Apenas o cabo do Vale atirou três vezes e atingiu o homem na cabeça. O caso foi encaminhado ao Tribunal do Júri de Cariacica, já que a Justiça entendeu que não se trata de crime militar.
Denúncias por lesão corporal O policial também já foi denunciado duas vezes pelo Ministério Público Militar por lesão corporal grave. Os dois casos ocorreram em 2020. Em um deles, no bairro Porto Novo, em Cariacica, a denúncia aponta que o militar atirou quatro vezes contra um homem desarmado. Testemunhas relataram ainda que ele derrubou a vítima com uma rasteira, mesmo após os disparos. O cabo do Vale alegou que foi desacatado, ameaçado e agredido durante a abordagem.
Ele foi absolvido em primeira instância por falta de provas e por atraso na denúncia. O outro caso ocorreu fora do serviço. A vítima foi agredida em uma boate em Itaparica, em Vila Velha, onde o cabo do Vale atuava como segurança particular, atividade proibida para militares da ativa. O homem precisou passar por cirurgia no maxilar e ficou 11 dias internado.
Prisão e processo
Após a morte das duas mulheres em Cariacica, a Justiça decretou a prisão preventiva do cabo do Vale, que segue detido no Quartel do Comando-Geral, em Vitória. A Polícia Militar também abriu um processo demissionário contra o militar. "Já determinei a abertura do processo demissionário para o cabo do Vale, porque ele feriu a honra da instituição, o decoro, coisa com a qual nós não coadunamos.
Nós saímos diariamente às ruas para proteger e servir as pessoas, então já está instaurado esse procedimento", afirmou o comandante-geral, coronel Ríodo Lopes Rubim. Segundo ele, o prazo para conclusão do inquérito militar é de 20 dias, mas não há previsão para o término do processo demissionário. A Rádio Ativa ES, não conseguiu contato com a defesa do policial até a última atualização da reportagem.
Conduta de outros policiais Seis policiais militares que presenciaram a execução das duas mulheres não seguiram o protocolo da corporação, que prevê intervenção em crimes contra a vida, segundo o comandante-geral. “Os nossos protocolos preveem a intervenção em todo crime. Em toda tentativa contra a vida deve haver a intervenção dos nossos agentes, mesmo por parte de um colega. Ali, eles tinham que agir”, disse.
Fonte: Assessoria de comunicação da Policia Militar do ES/ MPES
Categoria:



